Escova bem e tem cáries novas: o problema é quantas vezes, não quanto

Escova duas vezes por dia, usa pasta com flúor e passa o fio quando se lembra. Na última consulta apareceram duas cáries novas. A conta não fecha, e a explicação mais provável não está na escovagem: está no número de vezes que, entre as refeições, comeu ou bebeu alguma coisa doce.

Este mês a Ordem dos Médicos Dentistas levou esse assunto para o debate político, no simpósio "A Saúde Começa na Boca: Açúcar, o inimigo silencioso", em Lisboa, e anunciou uma carta aberta ao Governo. O que se discutiu ali interessa a quem está do outro lado da cadeira, porque muda a pergunta que faz sentido fazer a si próprio sobre a alimentação.

Os números que a Ordem pôs na mesa

Segundo os dados apresentados pela Ordem, 46,5% das crianças portuguesas entre os 5 e os 14 anos bebem refrigerantes açucarados pelo menos uma vez por semana e 35,5% apresentam excesso de peso. Vale a pena dizer que a comunicação da Ordem não identificou a fonte destes dois valores, o que convém ter presente antes de os repetir como se fossem de um estudo revisto por pares.

O bastonário Miguel Pavão foi direto quanto ao problema de fundo: "A prevenção alimentar e a saúde oral não podem continuar a ser tratadas como áreas separadas." A diretora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, respondeu na mesma linha: "Para as pessoas não existem este tipo de fronteiras."

Entre as prioridades apresentadas está melhorar a oferta alimentar em creches e escolas e proteger as crianças da publicidade a produtos ricos em açúcar, sobretudo nos meios digitais. A carta aberta pede que os compromissos passem a ter responsáveis definidos, calendário, financiamento e indicadores públicos.

Quantas vezes, não quanto

A frequência encaixa melhor no que sabemos sobre a cárie

Cor van Loveren, da Academic Centre for Dentistry Amsterdam, publicou na Caries Research (53(2):168-175) uma revisão dedicada a esta pergunta: para prevenir a cárie, vale mais reduzir a quantidade de açúcar ou o número de vezes que o consumimos?

A conclusão é desconfortável para quem só conta gramas. As duas coisas andam juntas (a correlação medida por Bernabé e colegas em 2016 foi de 0,64), por isso é difícil separá-las em termos estatísticos, mas a frequência, e a capacidade de o alimento ficar colado aos dentes, encaixa melhor no que se sabe sobre o processo da cárie. A frase da revisão é clara: reduzir a quantidade sem reduzir a frequência não parece ser uma abordagem preventiva eficaz, ao contrário do inverso.

Os números dão-lhe forma. Em adultos finlandeses, cada ocasião adicional de consumo de açúcar por dia somou 0,15 ao índice de dentes com cárie, perdidos ou obturados, contra 0,1 por cada 10 gramas adicionais. Em crianças de creche, no trabalho de Rodrigues e Sheiham publicado em 2000, as que consumiam açúcar com maior frequência tinham uma probabilidade 4,7 vezes maior de incremento elevado de cárie (intervalo de confiança de 95%: 2,7 a 8,2). O grupo definido pela quantidade, acima de 32,6 gramas por dia, ficou nas 2,99 vezes.

Traduzido para a sua rotina: um pacote de bolachas comido de uma vez ao almoço faz menos estrago do que as mesmas bolachas distribuídas por seis pausas ao longo do dia. A quantidade é a mesma. O número de ataques ácidos ao esmalte não é.

O flúor muda a conta, e isso não o liberta

A mesma revisão diz algo que à primeira vista parece contraditório: quando o flúor é usado de forma adequada, a relação entre consumo de açúcar e cárie fica muito baixa ou desaparece. Isto não significa que o açúcar deixou de contar. Significa que, nas populações que escovam bem com pasta fluoretada, é o flúor que está a absorver o impacto, e que uma escovagem mal feita retira essa proteção silenciosamente.

É por isso que a escolha da pasta deixa de ser detalhe. Uma pasta dentífrica com flúor e dois minutos de escovagem feita a sério valem mais do que qualquer corte dramático no açúcar mantido durante três semanas. O resto da rotina (fio, elixir, raspador de língua) está reunido na gama de higiene oral blue®m.

Onde o açúcar se esconde

A Organização Mundial de Saúde recomendou, em março de 2015, manter os açúcares livres abaixo de 10% da ingestão energética total, com uma recomendação adicional, de nível condicional, de descer abaixo dos 5%, o equivalente a cerca de 25 gramas, ou seis colheres de chá, por dia. A 2000 kcal diárias, o limite dos 10% corresponde a 50 gramas.

O detalhe que muda hábitos está na definição. Para a OMS, açúcares livres incluem os açúcares adicionados pelo fabricante, pelo cozinheiro ou por quem come, mas também os que estão naturalmente presentes no mel, nos xaropes, nos sumos de fruta e nos concentrados de sumo. O sumo de laranja natural espremido em casa conta. A laranja inteira não conta, porque os açúcares da fruta fresca e dos legumes ficam fora da recomendação, por falta de evidência de efeitos adversos.

Quem toma um copo de sumo natural a meio da manhã, outro ao almoço e um ao fim da tarde já somou três ocasiões de açúcar livre, convencido de que não comeu nada doce.

O imposto baixou o açúcar das bebidas e não resolveu o hábito

Portugal tem, desde 2017, um imposto escalonado sobre bebidas não alcoólicas em função do teor de açúcar. Entre 2017 e 2025, a proporção de bebidas enquadradas no escalão mais elevado desse imposto caiu cerca de 45%, um sinal compatível com a reformulação da oferta pela indústria.

A Ordem dos Médicos Dentistas aceita o sinal e levanta a objeção certa: reformulação não é a mesma coisa que redução de consumo. Uma bebida que trocou açúcar por adoçante mantém intacto o hábito de beber alguma coisa doce cinco vezes ao dia. Para o esmalte, o açúcar desapareceu. Para o padrão de consumo que leva a criança aos refrigerantes aos 14 anos, não.

O acesso explica a maior parte do resto

O Barómetro Nacional de Saúde Oral de 2025 da Ordem dos Médicos Dentistas, com 1200 entrevistados e uma margem de erro de 2,83% para um intervalo de confiança de 95%, mostra que a boca em Portugal se divide por rendimento antes de se dividir por hábitos. A dentição natural completa chega aos 46,4% nos estratos sociais mais altos e fica nos 14,4% no estrato mais baixo, com 35,4% no total da população.

Dois números pesam mais do que parecem. 70,3% da população não sabe que o Serviço Nacional de Saúde disponibiliza serviços de medicina dentária, um valor que subiu 4,3 pontos percentuais face à edição anterior. E metade dos menores de 6 anos nunca visitou um médico dentista, precisamente a idade em que a prevenção da cárie custa menos e rende mais.

Do lado dos hábitos, 78,0% dizem escovar os dentes com frequência, acima dos 74,4% de 2024, mas apenas 23,4% usam fio dentário diariamente. E 26,0% só procuram o dentista em urgência, o momento em que a opção deixa de ser prevenir e passa a ser reparar ou substituir o dente perdido.

O que pode mudar esta semana

Três decisões, por ordem de impacto esperado. Concentre o açúcar nas refeições em vez de o espalhar pelo dia, porque o alvo é o número de ocasiões. Conte os sumos, o mel e os xaropes como açúcar, porque a OMS conta. E trate a escovagem com pasta fluoretada como a parte não negociável da rotina, porque é ela que está a fazer o trabalho pesado enquanto o resto não muda.

Perguntas frequentes

Sumo de fruta natural conta como açúcar?

Conta. A definição da OMS inclui os sumos de fruta e os concentrados nos açúcares livres. A fruta inteira fica de fora. Se bebe sumo natural fora das refeições, está a adicionar ocasiões de exposição ácida ao esmalte.

Se escovar bem com pasta fluoretada, posso comer o que quiser?

Não. A revisão da Caries Research mostra que, com flúor bem usado, a relação entre açúcar e cárie fica muito baixa, o que significa que o flúor está a compensar, não que o açúcar deixou de atacar. Basta uma fase de escovagem descuidada para a conta voltar a aparecer.

Há um número seguro de vezes por dia?

A evidência não fixa um número único. Fixa uma direção: nos adultos finlandeses, cada ocasião adicional de açúcar por dia somou 0,15 ao índice de dentes com cárie, perdidos ou obturados. Menos ocasiões é sempre melhor do que a mesma quantidade repartida por mais momentos.

Antes da próxima consulta

Se vai mudar uma coisa, mude a frequência e garanta a escovagem. A gama de higiene oral blue®m cobre a parte da rotina que depende de si, da pasta com flúor ao fio e ao elixir. Para perceber qual é o produto indicado para o seu caso, ou para encaminhar uma questão clínica, fale connosco.

Fontes: Ordem dos Médicos Dentistas, simpósio "A Saúde Começa na Boca: Açúcar, o inimigo silencioso", outubro de 2026; Barómetro Nacional de Saúde Oral 2025, Ordem dos Médicos Dentistas; Organização Mundial de Saúde, diretriz sobre ingestão de açúcares, 4 de março de 2015; van Loveren C., "Sugar Restriction for Caries Prevention: Amount and Frequency. Which Is More Important?", Caries Research, 53(2):168-175.