Tomou antibiótico para a dor de dentes e nada mudou. Porquê

Dor de dentes na quinta-feira, consulta marcada para terça. No intervalo, alguém lhe passou uma receita de amoxicilina e disse para ir tomando. Cinco dias depois a embalagem está quase vazia, a dor continua a acordá-lo às três da manhã e já ninguém sabe explicar porquê.

A explicação está escrita, em português, desde 2011. A norma que orienta a prescrição de antibióticos em patologia dentária em Portugal prevê este resultado com precisão e diz, numa lista curta, que aquele comprimido não tinha nada a fazer naquele dente.

A norma portuguesa exclui o antibiótico em quatro situações

A Norma nº 064/2011 da Direção-Geral da Saúde, atualizada a 25 de novembro de 2014, é o documento de referência para prescrição de antibióticos em patologia dentária. Antes de listar o que tratar, lista o que não tratar. Em pessoas saudáveis, o antibiótico não está indicado em:

  • Pulpite, reversível ou irreversível. É o quadro por trás da maioria das dores de dente intensas e espontâneas, aquelas que pioram deitado e reagem ao frio ou ao calor.
  • Gengivite.
  • Abscesso periodontal sem manifestações sistémicas. Ou seja, sem febre, sem mal-estar, sem gânglios aumentados.
  • Alveolite fibrinolítica. A dor que aparece dois a três dias depois de uma extração, quando o coágulo se desfaz.

Estas quatro entradas cobrem uma parte substancial do que entra numa urgência dentária. Se alguma delas descreve o seu caso, a receita que tem em casa não falhou por azar nem por o antibiótico ser fraco. Falhou porque o problema não é tratável por essa via.

Onde o antibiótico entra, e com qual

A mesma norma é igualmente explícita no sentido contrário. No abscesso periapical e na pericoronarite, amoxicilina em primeira linha. No abscesso periodontal com manifestações sistémicas, também amoxicilina. Na gengivite e periodontite ulcerativa necrosante, metronidazol, isolado ou associado a amoxicilina. Nas celulites cervicofaciais e na osteomielite supurativa, esquemas mais pesados, às vezes com internamento.

Há ainda duas regras de troca que vale a pena conhecer, porque dependem de informação que só o doente tem. Se tomou amoxicilina nos últimos 30 dias, ou se a infeção já leva mais de 72 horas sem tratamento, a norma manda passar a amoxicilina com ácido clavulânico. Em caso de alergia aos beta-lactâmicos, clindamicina. As doses de adulto estão fixadas: amoxicilina entre 1500 e 3000 mg por dia em três tomas, metronidazol entre 1 e 1,5 g por dia. Se lhe prescreveram sem perguntar pelos 30 dias anteriores, vale a pena dizê-lo.

Mediram a dor com e sem penicilina. Deu o mesmo

A revisão Cochrane sobre antibióticos na pulpite irreversível, publicada a 30 de maio de 2019 com evidência recolhida até fevereiro desse ano, procurou ensaios que respondessem à pergunta. Encontrou um. Quarenta participantes: vinte com penicilina 500 mg a cada seis horas durante sete dias, vinte com placebo. Os dois grupos tiveram ibuprofeno e paracetamol com codeína à disposição.

Ao fim dos sete dias, a intensidade mediana da dor era 6,0 nos dois grupos. O consumo de ibuprofeno também não os separou: 9,20 comprimidos no grupo da penicilina contra 9,60 no placebo, uma diferença de 0,40 comprimidos, com intervalo de confiança a 95% entre -4,23 e 3,43.

Vale ler o que os autores escreveram, porque é mais exigente do que a leitura rápida. Não concluíram que o antibiótico não funciona. Concluíram que a evidência é insuficiente para determinar se reduz a dor, e classificaram a certeza como baixa. Quarenta pessoas num único ensaio não fecham uma questão clínica. O que isso significa na prática é outra coisa: em 2026, ninguém dispõe de um estudo capaz de sustentar o antibiótico como analgésico num dente com pulpite. A norma da DGS chegou ao mesmo sítio por outro caminho.

Os 10% que saem do consultório dentário

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças publica todos os anos o consumo de antibióticos na União Europeia. Em 2024, o consumo humano total foi de 20,3 doses diárias definidas por mil habitantes por dia, contra 19,9 em 2019. Cinco anos depois do ponto de partida, a Europa consome 2% mais, não menos. No setor comunitário, fora dos hospitais, o valor foi 18,8, com os países a variar entre 9,0 e 27,8.

A meta acordada para 2030 é descer 20% em relação a 2019, o que obriga a passar de 19,9 para 15,9. Cada país tem o seu objetivo, entre 3% e 27%, consoante o ponto de partida. Portugal tem aqui um sinal favorável nos dados do ECDC: a razão entre antibióticos de largo e de estreito espectro no setor comunitário desceu de forma estatisticamente significativa entre 2020 e 2024, o que indica prescrição mais dirigida.

A Federação Dentária Internacional estima que cerca de 10% de todos os antibióticos usados em humanos venham de prescrições em medicina dentária. É uma fatia modesta no total e desproporcionada no detalhe, porque uma parte considerável destina-se precisamente aos quadros que a norma portuguesa não considera indicação. Cada caixa tomada sem indicação faz duas coisas ao mesmo tempo: não trata o dente e seleciona bactérias resistentes na sua própria boca e intestino, que ficam lá para a próxima infeção, essa sim tratável.

O que resolve, enquanto espera pela consulta

A dor de pulpite acaba quando a polpa deixa de estar inflamada dentro de um espaço fechado. Isso faz-se com endodontia, drenagem ou extração. Até lá, o controlo é analgésico, e aqui a evidência aponta para a combinação de ibuprofeno com paracetamol em doses adequadas, não para o antibiótico. Confirmar o intervalo das tomas com o médico dentista rende mais do que uma receita de amoxicilina.

Os sinais que mudam a urgência

Há situações em que a conta se inverte e a espera deixa de ser aceitável. Inchaço que progride para o olho ou para o pescoço, dificuldade em engolir ou em respirar, febre, impossibilidade de abrir a boca. Nesses casos já se fala de celulite cervicofacial, que é uma das indicações formais da norma e exige avaliação no mesmo dia, antibiótico incluído. O critério é a propagação da infeção. A intensidade da dor, por si, não decide.

No intervalo, a higiene faz trabalho real. Uma boca com biofilme controlado inflama menos e cicatriza melhor depois do procedimento, e é por isso que os protocolos de pós-operatório insistem em elixires e géis em vez de improviso. A gama de higiene oral blue®m, formulada em torno de oxigénio ativo, foi desenhada para este tipo de contexto, e o Oral Gel blue®m é a apresentação habitual para aplicação localizada numa zona em recuperação.

Se tem implantes, a conversa muda de sítio

Na mucosite peri-implantar e na peri-implantite, o problema é biofilme numa superfície que não se descama. O antibiótico sistémico isolado não desinfeta uma superfície de titânio colonizada, e o tratamento começa sempre por desbridamento mecânico e por corrigir o que permitiu a acumulação, da higiene ao desenho da prótese. Com implantes, os intervalos de manutenção valem mais do que uma caixa de antibiótico na gaveta. Se quer entender o que distingue os sistemas de implantes e o acompanhamento que exigem, a página Dentis reúne essa informação.

Perguntas frequentes

Posso pedir antibiótico ao médico de família enquanto espero pelo dentista?

Pode descrever o quadro e deixar a decisão a quem avalia. A norma separa os casos pela presença de infeção em propagação ou com manifestações sistémicas, independentemente da especialidade de quem prescreve. Sem isso, e sobretudo numa pulpite, o antibiótico não abrevia a espera nem reduz a dor de forma demonstrada.

Se o antibiótico me tirou a dor da última vez, porque é que agora não serve?

Provavelmente a última vez não era o mesmo diagnóstico. Um abscesso periapical drenado responde ao antibiótico porque há infeção estabelecida; uma pulpite não, porque o que dói é uma polpa inflamada sob pressão. Dores parecidas, mecanismos diferentes, decisões diferentes.

Interromper o antibiótico a meio faz mal?

Essa decisão é de quem prescreveu, e deve ser tomada com um telefonema e não por iniciativa própria. A norma portuguesa só fixa duração mínima para as infeções profundas graves, cinco dias além da melhoria substancial dos sinais e sintomas. Para os restantes quadros não impõe um número de dias, o que reforça a reavaliação clínica em vez do calendário automático.

Antes de abrir a caixa

Se tem dor de dentes e uma receita de antibiótico sem febre, sem inchaço em propagação e sem mal-estar geral, leve as duas coisas à consulta e pergunte qual é o diagnóstico que justifica a prescrição. A resposta é rápida e muda o tratamento. Para manter a boca em condições entre consultas e no pós-operatório, veja a gama blue®m; se tiver dúvidas sobre qual das apresentações faz sentido no seu caso, fale connosco.

Fontes: Direção-Geral da Saúde, Norma nº 064/2011 de 30/12/2011, atualizada a 25/11/2014, Prescrição de Antibióticos em Patologia Dentária. Agnihotry A. et al., Antibiotic use for irreversible pulpitis, Cochrane Database of Systematic Reviews, 30 de maio de 2019, CD004969. ECDC, Antimicrobial consumption in the EU/EEA (ESAC-Net), Annual Epidemiological Report for 2024. FDI World Dental Federation, Preventing AMR and Infections.