Ómega-3 e aspirina igualaram os antibióticos nas gengivas. O que o estudo não diz

A gengiva sangra quando escova e alguém, algures, já lhe disse que era da escova ser dura demais. Se numa consulta ouviu a palavra periodontite, é provável que tenha saído com uma receita de antibiótico e com a ideia de que o comprimido tratava o problema. Um ensaio clínico publicado este ano no Journal of Periodontology pôs essa ideia à prova durante doze meses, e a conclusão mais útil para si não foi a que ficou nos títulos.

O que foi testado

A equipa, liderada por Magda Feres (Harvard School of Dental Medicine e Universidade Guarulhos), com Nídia Cristina Castro dos Santos, do Hospital Israelita Albert Einstein, como primeira autora, acompanhou 109 doentes com periodontite avançada durante um ano, com reavaliações aos três, aos seis e aos doze meses. Os participantes foram distribuídos ao acaso por quatro grupos:

  • placebo;
  • metronidazol e amoxicilina, três vezes por dia, durante 14 dias;
  • 3 gramas diárias de ómega-3 mais ácido acetilsalicílico em dose baixa, durante seis meses;
  • os antibióticos e a combinação de ómega-3 com ácido acetilsalicílico em simultâneo.

O critério de sucesso foi concreto e exigente: chegar aos doze meses com quatro ou menos bolsas periodontais profundas. Não era "melhorar", nem "sentir menos sangramento". Era um número de bolsas contadas na boca, medida a medida, por quem não sabia que tratamento cada doente tinha recebido.

Os resultados, sem arredondamentos

No grupo dos antibióticos, 58% atingiu o objetivo. No grupo do ómega-3 com ácido acetilsalicílico, 57,7%. No grupo do placebo, 23,1%. Juntar as duas estratégias no quarto grupo não acrescentou benefício sobre qualquer uma delas isolada.

Três décimas de diferença entre catorze dias de antibiótico de largo espetro e seis meses de um suplemento com um anti-inflamatório barato é um resultado que merece atenção. Merece também o contexto que vem a seguir.

O detalhe que os títulos deixaram de fora

Os quatro grupos, incluindo o do placebo, receberam instrumentação subgengival, ou seja, a limpeza mecânica das superfícies das raízes por baixo da gengiva. E o grupo que tomou cápsulas sem qualquer princípio ativo ainda assim atingiu o objetivo em 23,1% dos casos de periodontite avançada.

Daqui saem duas leituras práticas para quem está do lado da cadeira. A primeira é que a remoção mecânica do biofilme é o tratamento, e o comprimido, qualquer que seja, é o que se lhe junta. A segunda é operacional: se sair de uma consulta com uma receita, sem sessões de instrumentação marcadas e sem data para voltar a medir as bolsas, o essencial ficou por fazer. Peça o plano por escrito, com o número de sessões previstas e a data da reavaliação.

Para quem é que isto muda mesmo alguma coisa

A associação de metronidazol e amoxicilina implica cerca de 42 tomas em catorze dias. O metronidazol dá reações desagradáveis com álcool, provoca com frequência sabor metálico e náuseas, e a amoxicilina está fora de questão para quem tem alergia às penicilinas. A adesão a este esquema não é trivial, e quem o interrompe a meio fica com o pior dos dois mundos.

É aqui que o estudo pesa. Nas palavras de Magda Feres, o esquema com ómega-3 representa "uma alternativa real para quem não pode tomar antibióticos, sobretudo doentes com alergia ou intolerância a estes medicamentos". Acrescente-se o argumento de saúde pública: cada ciclo de antibiótico evitado é um contributo para travar a resistência antimicrobiana, e a periodontite é uma das indicações em que se prescrevem antibióticos com frequência sem que a evidência o justifique sempre.

Porque é que não deve começar amanhã a tomar ácido acetilsalicílico

O resultado é promissor e não é uma indicação para automedicação. Quatro razões objetivas:

  • As 3 gramas diárias de ómega-3 do ensaio estão bastante acima do que traz uma cápsula comum de venda livre, e foram tomadas sob supervisão durante seis meses.
  • O ácido acetilsalicílico diário aumenta o risco hemorrágico e interage com anticoagulantes e com outros anti-inflamatórios. Não é um suplemento.
  • O ensaio incluiu apenas pessoas sem doenças sistémicas relevantes, o que exclui à partida boa parte de quem tem periodontite avançada.
  • Os próprios autores escrevem que os resultados não sustentam, para já, a substituição dos antibióticos por rotina, e que faltam dados noutras populações.

A conversa a ter com o seu médico dentista é esta: "há alternativa ao antibiótico no meu caso?". Não é começar a tomar nada por conta própria.

O que controla as gengivas entre consultas

O biofilme volta a organizar-se em horas depois de ser removido. Por isso é que o resultado de uma instrumentação bem feita se perde em meses quando a higiene diária não acompanha, e por isso é que o intervalo entre consultas conta tanto como a consulta.

Os dados portugueses mostram onde está a falha. Segundo o Barómetro da Saúde Oral de 2023 da Ordem dos Médicos Dentistas, 78,8% dos portugueses escovam os dentes duas vezes por dia, mas apenas 64,4% vão ao dentista pelo menos uma vez por ano, com uma quebra de três pontos percentuais face ao ano anterior. A escovagem está razoavelmente instalada. O espaço entre os dentes, que é precisamente onde a periodontite se instala, continua a ser o território esquecido do fio dentário e dos escovilhões.

Nas gengivas inflamadas, sensíveis ou em recuperação de cirurgia, os elixires com álcool e a clorexidina de uso prolongado trazem os seus próprios problemas, da secura ao pigmento nos dentes. A gama de higiene oral blue®m, formulada com oxigénio ativo e sem álcool, foi pensada para esse uso continuado em gengivas comprometidas e no pós-operatório. Complementa a instrumentação e o controlo diário do biofilme, não os substitui.

E o sinal mais simples de todos: gengiva saudável não sangra. Sangramento que se repete durante mais de duas semanas com escovagem correta é motivo para consulta, não para escovar com menos força.

Quando as gengivas já custaram dentes

O mesmo Barómetro estima que seis milhões de portugueses tenham pelo menos um dente em falta e que 22,8% da população não tenha seis ou mais dentes, o limite a partir do qual a mastigação fica comprometida. Muitas dessas ausências têm origem periodontal.

A ordem dos fatores importa aqui mais do que em qualquer outro lado. Colocar implantes numa boca com periodontite ativa é repetir o problema noutro suporte, porque o mesmo perfil de bactérias e a mesma resposta inflamatória produzem peri-implantite. Qualquer plano de reabilitação sério começa por estabilizar a doença, medir de novo, e só depois planear. Se quiser perceber que sistemas de implantes a sua clínica utiliza e como funciona a cirurgia guiada, a página da marca Dentis explica a linha que distribuímos em Portugal, e a nossa equipa responde a perguntas técnicas através da página de contacto.

Perguntas frequentes

Posso pedir ómega-3 e ácido acetilsalicílico em vez do antibiótico?

Pode levantar a hipótese em consulta, sobretudo se tem alergia ou intolerância aos antibióticos usados. A decisão depende do seu historial, da medicação que já toma e do risco hemorrágico. O esquema testado foi de seis meses, com acompanhamento clínico, e não corresponde ao que se compra sem receita.

O sangramento das gengivas passa com um elixir?

Um elixir reduz a carga bacteriana à superfície e ajuda no conforto, mas não chega ao biofilme organizado dentro da bolsa periodontal. Se o sangramento persiste, o que falta é instrumentação subgengival, não outro produto.

Quantas sessões de raspagem são necessárias?

Depende da extensão da doença e do número de bolsas profundas. O tratamento costuma ser distribuído por sessões, por quadrantes ou por sextantes, e a reavaliação faz-se semanas depois, com nova medição das bolsas. É essa medição, e não a sensação de melhoria, que diz se resultou.

O passo seguinte

Se tem gengivas que sangram, marque a avaliação periodontal e peça o registo das medições. Para o controlo diário entre consultas, com gengivas sensíveis ou em recuperação, veja a gama blue®m disponível na nossa loja.

Fontes: Castro dos Santos NC, Feres M, et al., "Immunomodulators, associated or not with systemic antibiotics, to treat periodontitis: A 1-year multicenter, placebo-controlled, double-blind, randomized clinical trial", Journal of Periodontology, 2026; Agência FAPESP, 5 de agosto de 2026; Ordem dos Médicos Dentistas, Barómetro da Saúde Oral 2023.