Pergunta ao doente se toma alguma medicação. Ele diz que não. Vinte minutos depois percebe que engoliu dois comprimidos de ibuprofeno antes de sair de casa, que usa um colutório com clorhexidina há cinco semanas por iniciativa própria e que aplicou na véspera um ácido comprado online na zona onde ia trabalhar. Não lhe mentiu. Para ele, nada daquilo conta como medicação.
O STADA Health Report 2026, cujos resultados portugueses foram apresentados a 15 de outubro de 2026, dá a dimensão do problema: 93% dos inquiridos portugueses reportam recorrer à automedicação. A pergunta fechada que está na sua ficha de anamnese foi desenhada para um doente que já não existe.
O que o relatório mediu
O inquérito foi conduzido pela Human8 para a STADA entre fevereiro e março de 2026, com 19.514 participantes entre os 18 e os 99 anos, em 20 países, Portugal incluído. Três leituras interessam diretamente a quem atende.
A automedicação é a norma declarada
Além dos 93% globais, a repartição por tipo de problema diz onde está o risco. 78% dos portugueses sentem-se confortáveis a automedicar-se em sintomas de constipação ou gripe, 39% em problemas gastrointestinais ligeiros e 22% em problemas de pele, como acne ou erupções cutâneas. Esse último número é o que lhe entra na sala de tratamento sem ser declarado.
O doente sente que controla pouco a própria saúde
Apenas 44% dos portugueses dizem ter a saúde total ou maioritariamente sob controlo, contra uma média de 78% nos 20 países. Portugal fica em último lugar, com o Reino Unido no topo, a 89%. Em paralelo, 58% referem sobrecarga de informação sobre saúde, contra 46% da média. Baixa sensação de controlo com excesso de informação produz um comportamento previsível: o doente experimenta por conta própria antes de marcar, e depois não valoriza o que experimentou.
A triagem já passou pela IA
51% dos portugueses considerariam receber aconselhamento de inteligência artificial em vez de consultar um médico, contra 35% no ano anterior. 30% recorrem já à IA para compreender um diagnóstico e 22% para fins preventivos. A principal preocupação declarada, com 61%, são erros ou diagnósticos incorretos, o que mostra que não há ingenuidade: há falta de alternativa percebida. A confiança no profissional continua alta, com 90% a dizer que os médicos influenciam as suas decisões de saúde e 71% a dizer o mesmo dos farmacêuticos, acima dos 77% e 57% da média. O doente confia em si, simplesmente chega depois de já ter decidido.
Três sítios onde a omissão aparece primeiro
O analgésico tomado antes da consulta
Um doente que tomou um anti-inflamatório duas horas antes descreve-lhe uma dor que já não é a dor que tinha. Altera a intensidade relatada, altera a resposta aos testes térmicos e altera a decisão clínica que toma com base nessa resposta. A pergunta útil não é se toma medicação habitualmente, é a que hora foi a última dose e de quê. É uma pergunta de minutos, não de historial.
A pele que já foi tratada em casa
Com 22% a declarar automedicação para problemas de pele, a probabilidade de ter à frente alguém que andou a aplicar retinoides, peróxido de benzoílo ou ácidos de venda livre na área a tratar deixa de ser residual. O que distingue o risco não é quem aplica o produto, é a via: um ativo tópico e um injetável não perdoam a mesma omissão. Antes de um peeling químico interessa saber exatamente o que foi aplicado na área nos últimos 14 dias, incluindo o que foi comprado sem aconselhamento. Antes de qualquer procedimento por via injetável, interessa o mesmo sobre o estado da barreira cutânea e sobre suplementos em curso, que quase nunca são reportados como medicação porque o doente não os considera medicamentos.
O colutório que ninguém prescreveu
A clorhexidina está disponível sem receita e é um dos produtos que o doente com gengivas a sangrar compra por iniciativa própria. Usada semanas a fio sem supervisão, traz pigmentação extrínseca e alteração do paladar, e mascara um quadro inflamatório que continua a progredir por baixo. Quando o doente chega, o sangramento diminuiu e o problema não. Para manutenção prolongada sem esse efeito, as formulações de higiene oral com oxigénio ativo servem o propósito de uso diário que a clorhexidina não serve. O que interessa aqui é a sequência: perguntar o que já foi usado antes de propor o que vai usar.
Reescrever três perguntas
Nenhuma destas mudanças custa tempo de consulta. Todas mudam a taxa de resposta.
- Em vez de "toma alguma medicação?", pergunte "o que tomou nas últimas 48 horas, incluindo comprimidos, suplementos, chás ou qualquer coisa comprada sem receita?". A pergunta fechada convida a um não. A lista de exemplos convida a um inventário.
- Em vez de "está a fazer algum tratamento à pele?", pergunte "o que aplicou nesta zona nos últimos 14 dias?". Tratamento é uma palavra que o doente reserva para o que foi prescrito. Aplicar é uma palavra que inclui o frasco comprado online.
- Em vez de "tem alguma dúvida?", pergunte "o que é que já leu ou perguntou sobre isto antes de vir?". Com 51% dispostos a usar IA em alternativa à consulta, esta pergunta deixa de ser conversa e passa a ser recolha de informação clínica relevante.
O doente que chega com diagnóstico feito
Um consentimento informado assinado por alguém que já tem uma explicação na cabeça protege menos do que parece. Se a expectativa com que o doente entrou vier de uma resposta gerada por IA ou de um fórum, e se essa expectativa não ficar escrita em lado nenhum, a divergência entre o que ele esperava e o que foi executado só aparece depois. Registar em duas linhas, no processo, o que o doente achava que tinha e o que achava que ia acontecer, é a prova de que a conversa correu. Os 86% que preferem contacto presencial para rastreios e 84% para consultas médicas mostram que a procura por essa conversa existe, mesmo quando a triagem já foi feita no telefone.
Um teste de 20 doentes
Antes de mudar formulários, meça. Nos próximos 20 doentes, faça a pergunta fechada habitual e registe a resposta. Depois, antes do procedimento, faça a pergunta aberta com a lista de exemplos e registe de novo. A diferença entre as duas colunas é a fração do seu historial clínico que estava a ser perdida por formulação da pergunta. Em equipas com várias pessoas a fazer o acolhimento, vale a pena correr o teste por operador, porque a variação costuma estar aí e não no doente. Se quiser trabalhar o protocolo de acolhimento e de avaliação pré-procedimento com a equipa toda, é isso que fazemos nas sessões de formação.
Perguntas frequentes
93% de automedicação significa que os doentes tomam antibióticos por conta própria?
Não. O relatório mede automedicação em sentido amplo e os valores mais altos aparecem em constipação e gripe, com 78%, e em problemas gastrointestinais ligeiros, com 39%. Não desagrega por classe de medicamento. O que o número suporta é que a prática é generalizada, não que incida sobre fármacos sujeitos a receita.
Quanto tempo de suspensão devo exigir para ativos tópicos antes de um procedimento?
Depende do ativo, da concentração e da via do procedimento que vai executar, por isso a resposta vem da ficha técnica do produto que utiliza e não de uma regra geral. O que esta leitura acrescenta é anterior a isso: sem saber o que o doente aplicou, nenhum intervalo de suspensão está a ser cumprido.
Vale a pena perguntar ao doente se usou IA?
Vale, e sem tom de censura. Com 30% a recorrer à IA para compreender um diagnóstico, a pergunta revela a expectativa com que o doente entrou e permite corrigi-la antes do procedimento em vez de depois. É informação, não confronto.
O passo seguinte
Se quer revisar o guião de anamnese e o circuito pré-procedimento da sua clínica, com os produtos e as vias de aplicação que usa no dia a dia, fale com a nossa equipa.
Fontes: STADA Health Report 2026 (inquérito Human8 para a STADA, 19.514 participantes, 20 países, fevereiro a março de 2026), resultados portugueses apresentados a 15 de outubro de 2026; HealthNews, "Relatório STADA: Automedicação abrange 93% dos portugueses", 15 de outubro de 2026; News Farma, "STADA Health Report 2026: apenas 44% dos portugueses sentem ter controlo sobre a gestão da sua saúde", 15 de outubro de 2026; Observador/Lusa, 7 de julho de 2026.