O doente senta-se na sua cadeira duas vezes por ano. Tem facetas de desgaste nos caninos, língua com indentações laterais, pescoço largo e anti-hipertensor na lista de medicação. Sai de lá com uma goteira de bruxismo e nenhuma pergunta sobre o modo como dorme.
O último retrato populacional português da apneia obstrutiva do sono vem do estudo da Rede Médicos-Sentinela, com dados de 2014, publicado pelo INSA e pela Direção-Geral da Saúde em abril de 2015. A prevalência de doença diagnosticada acima dos 25 anos foi de 0,89%. Nos homens, 1,47%. Dos 65 aos 74 anos, 2,35%. O próprio relatório assinala que estes valores ficam abaixo dos de outros países e aponta subdiagnóstico.
0,89% contra 49,7%: o que cada número mede
No mesmo ano, o estudo HypnoLaus (Heinzer e colaboradores, The Lancet Respiratory Medicine, 2015) analisou 2.121 polissonografias de uma coorte populacional em Lausanne, com idades entre os 40 e os 85 anos. Encontrou um índice de apneia-hipopneia igual ou superior a 15 eventos por hora em 23,4% das mulheres (IC 95%: 20,9 a 26,0) e 49,7% dos homens (IC 95%: 46,6 a 52,8).
Os dois números não medem a mesma coisa. Um conta diagnósticos registados em cuidados primários a partir dos 25 anos. O outro conta eventos respiratórios medidos em laboratório, numa faixa etária mais velha e com critérios de pontuação modernos. Os autores do HypnoLaus são os primeiros a dizê-lo: parte da prevalência elevada reflete a maior sensibilidade das técnicas de registo atuais, e sugerem rever a definição da doença.
O que resta depois da ressalva continua desconfortável. A fração que chega a um diagnóstico formal é de outra ordem de grandeza face à fração com eventos mensuráveis, e a distância entre as duas é povoada por doentes que vão ao dentista todos os anos e nunca a um laboratório do sono.
A mudança de nome que diz onde está o médico dentista
Em outubro de 2026, em Budapeste, a assembleia geral da European Academy of Dental Sleep Medicine aprovou por unanimidade passar a chamar-se European Academy of Dentists in Sleep Medicine. Susana Falardo, médica dentista portuguesa, foi reeleita presidente para o mandato de 2026 a 2028, na reunião realizada em paralelo com o Dental World, que juntou cerca de 12 mil profissionais.
A alteração parece cosmética e não é. Deixa de nomear uma subdisciplina da medicina dentária e passa a nomear o profissional dentro de uma equipa de medicina do sono. A consequência prática: o médico dentista não diagnostica apneia, é chamado a tratar depois de um diagnóstico feito por outra especialidade. Quem inverte esta ordem constrói um problema medicolegal.
O que a evidência comparada diz do dispositivo de avanço mandibular
Na redução do IAH, o CPAP continua à frente
Em agosto de 2026, a Sleep and Breathing publicou uma revisão abrangente de 14 revisões sistemáticas publicadas entre 2006 e 2023, que cobrem 189 estudos primários distintos. A conclusão é direta: o CPAP é mais eficaz do que o dispositivo de avanço mandibular a reduzir o IAH e o índice de dessaturação de oxigénio. Retenha também o resto do quadro, raramente citado: nenhuma das 14 revisões foi classificada como de alta qualidade metodológica, e a sobreposição entre elas é moderada (índice de área coberta corrigida de 10,18%).
Na sonolência diurna, empatam
Na mesma análise, todas as revisões que avaliaram sonolência diurna concluíram que não existe diferença estatisticamente significativa entre as duas terapias, com uma única exceção em ensaios cruzados. No desfecho que o doente sente e relata, as duas opções comportam-se de forma semelhante.
Na adesão, a comparação inverte-se
Aqui está o ponto que decide muitos casos. A mesma revisão cita dois estudos primários: Yu e colaboradores (2023) registaram o dispositivo oral usado, em média, mais 1,1 horas por noite do que o CPAP; Vecchierini (2021) verificou que 91,3% de 331 doentes o usavam seis ou mais horas por noite.
É a diferença entre eficácia e efetividade. Um aparelho que reduz menos eventos por hora, mas é usado mais horas e em mais noites, entrega mais sono tratado num ano do que um aparelho melhor que fica na mesinha de cabeceira.
A escolha do desenho não é indiferente, mas não pelo motivo habitual
A discussão na clínica costuma centrar-se em monobloco contra bibloco, ou em titulável contra não titulável. Chen, Zhang, Gao e Almeida publicaram no American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics (2025;167(6):635-647) uma revisão sistemática com meta-análise de 22 estudos, 15 deles ensaios aleatorizados, que aponta noutra direção:
- Titulável contra não titulável: sem diferença agregada significativa no IAH (diferença média ponderada de 1,16; P = 0,35), com heterogeneidade alta (I² = 80%).
- Personalizado contra pré-fabricado termoplástico: vantagem marginal do personalizado no IAH (diferença média de 1,51; P = 0,06), desta vez com heterogeneidade nula (I² = 0%).
- Adesão, personalizado contra pré-fabricado: mais 1,19 horas de utilização por noite a favor do personalizado (IC 95%: 0,65 a 1,73; P < 0,0001).
- Adesão, titulável contra não titulável: Lee e colaboradores (2013) reportaram 83,3% contra 68,8% (P = 0,044); Tegelberg (2020) não encontrou diferença significativa.
A leitura útil: a variável de desenho com efeito mais consistente não é a titulação, é a personalização, e aparece na adesão, não na redução de eventos por noite. Quando um doente chega com um aparelho comprado online e moldado em água quente, o problema previsível está na hora de uso que se perde todas as noites.
Quem não é candidato
O dispositivo ancora nos dentes e transmite-lhes carga todas as noites durante anos. Isto exclui ou obriga a reavaliar dentição reduzida, suporte periodontal comprometido, reabilitações extensas e próteses implanto-suportadas. Em doentes reabilitados com implantes, avalie a distribuição de carga e a retenção disponível antes de moldar seja o que for.
A guideline da European Respiratory Society sobre terapias não-CPAP, publicada na European Respiratory Review em 2021, avalia oito questões clínicas com metodologia GRADE e inclui os dispositivos de duplo bloco feitos à medida. É o documento europeu de referência para fundamentar a indicação por escrito no processo clínico.
O que dizer ao doente antes de moldar
Bartolucci e colaboradores analisaram no European Journal of Orthodontics (2018) 21 estudos com seguimentos entre dois e onze anos. As alterações dentoesqueléticas a longo prazo são consistentes em direção: redução do overjet e do overbite, retroinclinação dos incisivos superiores e vestibularização dos inferiores. A meta-regressão mostrou que a magnitude depende da duração do tratamento (P < 0,05), com evidência de qualidade baixa a moderada.
Na prática: registos de base antes do primeiro dispositivo (fotografias, modelos ou digitalização, registo oclusal), consentimento informado que mencione explicitamente a alteração oclusal progressiva, e controlo da oclusão em intervalos definidos à partida.
Há ainda o efeito que raramente entra na conversa. Um aparelho usado seis a oito horas por noite, muitas vezes num doente que respira pela boca, altera o ambiente oral: xerostomia noturna, biofilme e inflamação gengival passam a fazer parte do acompanhamento. Protocolos com oxigénio ativo e higiene oral blue®m são uma resposta razoável para a boca seca associada ao dispositivo.
O que montar na clínica esta semana
- Duas perguntas na anamnese: ressona de forma audível noutra divisão da casa, e sente sonolência diurna apesar de dormir as horas habituais.
- Registar o que já observa e hoje não documenta: facetas de desgaste, indentações linguais, Mallampati, perímetro cervical, hipertensão medicada.
- Um circuito de referenciação por escrito para pneumologia ou neurofisiologia, com nome e contacto. Sem estudo do sono não há tratamento.
- Protocolo de registos de base e intervalo de controlo oclusal fixados antes do primeiro caso.
- Formação diferenciada da equipa antes de abrir a área. A formação clínica certificada é o que separa uma consulta de medicina dentária do sono de uma goteira vendida com outro nome.
Perguntas frequentes
Posso fazer um dispositivo de avanço mandibular sem estudo do sono prévio?
Não. O médico dentista não estabelece o diagnóstico. Sem IAH de base não há gravidade documentada para fundamentar a indicação nem valor de referência para comparar o estudo de controlo após a titulação.
Um pré-fabricado serve para testar antes de avançar para o personalizado?
A meta-análise de 2025 mostra o personalizado usado mais 1,19 horas por noite (IC 95%: 0,65 a 1,73). Um teste com pré-fabricado arrisca medir a tolerância ao aparelho errado e levar a abandonar uma terapia que teria funcionado.
Um doente que não tolera CPAP pode passar para dispositivo oral?
É uma das indicações reconhecidas, com decisão partilhada com o médico do sono. Conte com menor redução do IAH e adesão potencialmente superior, e documente ambos os lados da troca.
Antes de abrir a área na sua clínica
Circuito de referenciação, registos de base, controlo oclusal e equipa formada. Se está a avaliar o que lhe falta montar, fale connosco através da página de contacto.
Fontes: INSA e DGS, estudo da Rede Médicos-Sentinela (2015); Heinzer et al., The Lancet Respiratory Medicine (2015); Sleep and Breathing (2026), revisão abrangente de revisões sistemáticas; Chen, Zhang, Gao e Almeida, Am J Orthod Dentofacial Orthop 2025;167(6):635-647; Bartolucci et al., European Journal of Orthodontics (2018); ERS, European Respiratory Review (2021); O JornalDentistry, 19 de outubro de 2026.