Procurou "branqueamento dentário" e apareceu um kit a 19 euros, com entrega em dois dias e a palavra "profissional" impressa na caixa. A promessa é de seis tons em uma semana. O que a caixa raramente diz é a concentração real de peróxido no gel, e é essa concentração que decide ao mesmo tempo se o produto é legal na União Europeia, se tem alguma hipótese de resultar, e se vai deixar os seus dentes a doer durante semanas.
A lei europeia tem três patamares e só um chega ao consumidor
O branqueamento dentário é regulado na União Europeia como produto cosmético, ao abrigo do Regulamento (CE) n.º 1223/2009, com as regras específicas introduzidas pela Diretiva 2011/84/UE, aplicável desde outubro de 2012, e afinadas pelo Regulamento (UE) n.º 1197/2013. O INFARMED resume os patamares assim:
- Abaixo de 0,1% de peróxido de hidrogénio, presente ou libertado: a única categoria que pode ser vendida livremente ao público.
- Entre 0,1% e 6%: comercialização exclusiva para médicos dentistas, com aplicação vedada a menores de 18 anos.
- Acima de 6%: proibido na União Europeia, em qualquer circunstância.
Repare na distância entre o primeiro e o segundo patamar. Um gel de 6% tem sessenta vezes mais peróxido do que o máximo que lhe podem vender sem passar por uma clínica. Essa distância marca a fronteira entre um cosmético de venda livre e um ato clínico, com avaliação prévia e responsabilidade profissional por trás.
O truque do peróxido de carbamida
Muitos rótulos não falam de peróxido de hidrogénio, falam de peróxido de carbamida, e o comprador presume que se trata de outra coisa. O peróxido de carbamida decompõe-se e liberta aproximadamente um terço do seu peso em peróxido de hidrogénio. Um gel anunciado como "10% de peróxido de carbamida" liberta perto de 3,5% de peróxido de hidrogénio, ou seja, trinta e cinco vezes acima do que a lei permite vender diretamente ao público. A expressão que conta no rótulo é "presente ou libertado", e é precisamente por causa desta conversão que ela existe.
O que acontece quando alguém testa os kits vendidos online
Vinte e um em trinta e seis estavam fora da lei
Em maio de 2021, a organização britânica de defesa do consumidor Which? comprou 36 kits de branqueamento em plataformas online e mandou analisá-los. Cerca de 60%, ou seja 21 dos 36, excediam o limite legal de peróxido de hidrogénio. No eBay, 5 dos 9 produtos testados eram ilegais. No Amazon Marketplace, 5 em 13 estavam acima dos limites. Algumas seringas de gel continham mais de 300 vezes o limite legal de venda livre.
O rótulo e o conteúdo raramente coincidem
Um estudo publicado na revista Heliyon em setembro de 2023 foi mais longe e comparou o que o rótulo dizia com o que estava dentro do frasco. Entre produtos encomendados no AliExpress, na Amazon.co.uk e em lojas online independentes, dois continham 3,13% e 3,01% de peróxido de hidrogénio, cerca de 80% abaixo do valor anunciado. Outros dois mediram 16,98% e 16,38%, ligeiramente acima do que o rótulo prometia e quase 170 vezes acima do limite de venda livre. Um deles não continha peróxido nenhum. A informação sobre ingredientes estava incompleta ou ausente em todas as páginas de venda analisadas, e apenas 16,7% dos sites incluíam qualquer precaução, enquanto 83,3% destacavam alegações de segurança.
Vale a pena ler esse último par de números devagar. Cinco em cada seis páginas de venda garantem ao comprador que o produto é seguro. Uma em cada seis diz-lhe o que fazer caso não seja.
O que chega depois à cadeira do dentista
Em novembro de 2025, o British Dental Journal dedicou um editorial ao branqueamento ilegal no Reino Unido, a propósito de uma investigação da BBC sobre kits distribuídos a esteticistas no noroeste de Inglaterra. Foram encontrados produtos com concentrações próximas de 50% de peróxido de hidrogénio. Alguns doentes acabaram por necessitar de extrações dentárias em consequência dos danos, além de dor intensa.
Mais peróxido não dá mais branco, dá mais dor
Esta é a parte que a publicidade nunca inclui. Uma revisão de revisões publicada no Saudi Dental Journal em 2026, reunindo 24 revisões sistemáticas sobre protocolos de branqueamento em consultório, concluiu que as concentrações intermédias de peróxido de hidrogénio produzem resultados de cor comparáveis aos das concentrações mais altas, com menos sensibilidade associada. As concentrações superiores foram associadas de forma consistente a maior incidência e maior intensidade de sensibilidade dentária, sem benefício adicional relevante no resultado estético.
Esses protocolos de alta concentração não são legais na União Europeia enquanto cosméticos, mas o padrão que a revisão descreve aplica-se na mesma ao gel comprado online: a partir de certo ponto, subir a concentração acrescenta efeitos adversos e não acrescenta cor. O kit ilegal de 17% não entrega dentes mais brancos do que um tratamento feito em clínica dentro da lei. Entrega o mesmo resultado, ou menos, com mais irritação gengival.
O carvão ativado não é a alternativa segura
Quem desiste dos kits de peróxido costuma cair no dentífrico de carvão ativado, vendido como a opção natural. Uma revisão sistemática publicada em 2023 na Annals of Anatomy analisou 11 estudos in vitro, selecionados a partir de 208 artigos. Sete dos oito estudos que avaliaram abrasão concluíram que as pastas com carvão ativado produziam o maior desgaste de todos os produtos comparados. Quanto ao efeito branqueador, ficaram atrás do peróxido de carbamida a 16% e das pastas com peróxido de hidrogénio. Os autores classificam-nas como menos seguras, pelo potencial abrasivo elevado.
O desgaste tem aqui um efeito perverso. Ao remover esmalte, a pasta expõe a dentina, que é naturalmente mais amarela do que o esmalte que a cobre. O dente vai ficando mais escuro à medida que a pasta o vai lixando, o que costuma levar a escovar com mais força e a acelerar o problema.
O que não vai ficar branco, faça o que fizer
O peróxido atua na estrutura do dente natural. Não atua em compósitos, facetas, coroas ou qualquer restauração cerâmica. Se tem uma coroa num incisivo e branqueia os dentes à volta, o resultado previsível é uma coroa que passa a destoar do resto do sorriso. O mesmo se aplica a reabilitações sobre implantes, em que a cor da peça foi definida no fabrico e não muda com nenhum gel. Nessas situações, alterar a cor implica refazer a peça, e essa é uma decisão a tomar com o médico dentista antes de começar o branqueamento, não depois.
O que verificar antes de comprar seja o que for
- Procure a concentração no rótulo. Se um produto de venda livre anuncia mais de 0,1% de peróxido de hidrogénio presente ou libertado, está a comprar algo que não devia estar à venda. Se não indica concentração nenhuma, lembre-se de que a informação em falta foi a regra em todas as páginas analisadas em 2023.
- Desconfie da palavra "profissional" numa caixa que chegou pelo correio. Na União Europeia, os produtos entre 0,1% e 6% são fornecidos a médicos dentistas, não a consumidores finais.
- Trate as causas antes da cor. Cáries por tratar, gengivas inflamadas e retrações gengivais transformam uma sessão de branqueamento em vários dias de dor. Uma rotina diária estável pesa mais no aspeto dos dentes do que qualquer gel: escovagem correta, limpeza interdentária e produtos que atuem sobre a inflamação, como os da gama blue®m de higiene oral.
- Remova o que mancha antes de tentar clarear. Boa parte do amarelecimento que vê ao espelho é pigmentação extrínseca de café, chá, tabaco e vinho tinto, que sai com destartarização e polimento, sem peróxido nenhum.
Perguntas frequentes
Os dentífricos branqueadores de supermercado são legais?
São, desde que fiquem abaixo de 0,1% de peróxido de hidrogénio presente ou libertado. Dentro desse limite, o efeito é de remoção de pigmentação superficial, não de alteração da cor interna do dente, e é por isso que a diferença se nota nas primeiras semanas e depois estabiliza.
Posso fazer branqueamento antes dos 18 anos?
Não com produtos da faixa entre 0,1% e 6%. A legislação europeia veda a aplicação desses produtos a pessoas com menos de 18 anos, e essa restrição é do produto, não do local onde é aplicado.
A sensibilidade que aparece depois do branqueamento é normal?
É frequente e costuma ser transitória quando o tratamento é feito com avaliação prévia e concentração adequada. Dor intensa, dor que persiste vários dias ou gengivas com feridas são sinais para parar e contactar o médico dentista, não para completar o ciclo na esperança de que passe.
A ordem certa das coisas
A cor dos dentes decide-se em consulta, com avaliação prévia, e mantém-se em casa, todos os dias. Para a parte de casa, a gama blue®m trabalha com oxigénio ativo sobre a causa da inflamação gengival e do mau hálito, em pasta dentífrica, elixir, gel e espuma oral, sem peróxidos em concentrações de branqueamento. Se representa uma clínica e pretende condições de distribuição, fale connosco.
Fontes: Regulamento (CE) n.º 1223/2009, Diretiva 2011/84/UE e Regulamento (UE) n.º 1197/2013; INFARMED, Produtos de Higiene Oral; Which?, análise de 36 kits de branqueamento vendidos online, maio de 2021; Heliyon, vol. 9, n.º 9, setembro de 2023; British Dental Journal, vol. 239, n.º 9, novembro de 2025; Saudi Dental Journal, revisão de revisões sobre protocolos de branqueamento em consultório, 2026; Annals of Anatomy, revisão sistemática sobre carvão ativado como agente branqueador, 2023.