Olhou para uma fotografia sua e a primeira coisa que viu foram os dentes. Procurou uma solução, encontrou um frasco com promessa de resultados em sete dias e comprou. Se as gengivas ficaram esbranquiçadas e a arder nas primeiras horas, isso não é o produto a funcionar: é uma queimadura química, e o frasco quase certamente continha uma concentração que é proibido vender na União Europeia.
Em 2025, a autoridade reguladora irlandesa (HPRA) reteve 6.849 unidades de produtos de branqueamento dentário e conseguiu a remoção de 105 endereços de sites que os vendiam. Quando analisou o conteúdo, encontrou peróxido de hidrogénio em concentrações entre 15% e 40%. O limite legal europeu para um produto que lhe possa ser vendido diretamente é de 0,1%.
A comparação que cria a vontade de branquear
Um estudo publicado em 2026 na revista Health Marketing Quarterly, conduzido por Khaled Ibrahim, Lisa McNeill e Li Mei na Universidade de Otago, na Nova Zelândia, inquiriu 502 participantes entre adolescentes e respetivos pais sobre a relação entre redes sociais e confiança na aparência dos dentes. O resultado que interessa aqui não é o óbvio. É a diferença entre dois tipos de utilizador.
Quem publica fotografias, comenta e cria conteúdo mostrou um impacto negativo mais acentuado do que quem apenas percorre o ecrã, observa e reage. A explicação dos autores é que o utilizador ativo entra na comparação como participante, não como espetador, e passa a avaliar a própria boca contra imagens que o algoritmo selecionou precisamente por serem as mais idealizadas do lote. Os investigadores descrevem o efeito como uma erosão da confiança dentária que produz sensação de inferioridade, vergonha e inveja.
A consequência prática é esta: o ponto de referência com que muitas pessoas chegam a uma consulta não é uma boca real de alguém da mesma idade, é uma média de imagens editadas. É essa distância que os produtos ilegais exploram com prazos de sete dias.
Os três patamares da lei, e o que eles explicam
O Regulamento (CE) 1223/2009, na versão alterada pela Diretiva 2011/84/UE, divide os produtos de branqueamento em três grupos, por concentração de peróxido de hidrogénio ou de substâncias que o libertam:
- Até 0,1%: pode ser vendido diretamente ao consumidor, em qualquer loja.
- Entre 0,1% e 6%: só pode ser fornecido a médicos dentistas e estomatologistas. A primeira aplicação de cada ciclo tem de ser feita pelo dentista ou sob a sua supervisão direta, e só depois o produto pode ser entregue ao doente para terminar o ciclo em casa.
- Acima de 6%: proibido em produtos cosméticos na União Europeia.
A lei acrescenta ainda uma interdição de idade: estes produtos não podem ser usados em menores de 18 anos, independentemente da concentração dentro da faixa profissional.
Estes números explicam uma frustração comum. A diferença entre o que é legal comprar sozinho e o que um dentista pode aplicar é de sessenta vezes. É por isso que tiras e géis de venda livre raramente alteram a cor do dente de forma visível: o que fazem é remover pigmento depositado à superfície. Se o seu problema é a cor interna do dente, o produto de venda livre não tem, por desenho legal, capacidade para o resolver.
O que os reguladores encontraram dentro dos frascos
O alerta da HPRA, de 30 de junho de 2026, quantifica o desvio. Não são produtos ligeiramente fora da norma: 40% é mais de seis vezes o teto máximo que um profissional pode utilizar, e quatrocentas vezes o limite de venda livre.
Lisa Byrne, responsável pela área de produtos cosméticos na HPRA, listou as consequências possíveis: queimaduras químicas nas gengivas, sensibilidade dentária, danos em restaurações existentes e maior risco de complicações orais a longo prazo. Mesmo a faixa de 0,1% a 6%, usada sem supervisão, pode provocar inflamação, dor e irritação gengival.
Cinco sinais de que o produto não devia estar à venda
- Promete um número de tons de diferença num prazo fixo, sem qualquer avaliação prévia.
- Não indica a percentagem de peróxido de hidrogénio nem lista de ingredientes em nomenclatura INCI.
- É aplicado num espaço sem médico dentista presente e responsável pelo ato.
- Diz "sem peróxido" mas contém perborato de sódio ou dióxido de cloro, que levantam o mesmo problema legal e, no caso do dióxido de cloro, atuam em meio ácido sobre o esmalte.
- Vem de um site sem endereço físico na União Europeia nem responsável pela colocação no mercado identificado.
O carvão ativado não altera a cor do dente
Uma revisão sistemática publicada em 2023 na Annals of Anatomy, por Tomás, Pecci-Lloret e Guerrero-Gironés, avaliou as pastas com carvão ativado e chegou a duas conclusões que interessam a quem as compra. A maioria das pastas de carvão no mercado produziu alterações de cor insignificantes face a agentes de branqueamento convencionais. E quase todos os estudos incluídos registaram alterações significativas de rugosidade da superfície dentária medida por perfilómetro, com as pastas mais ricas em carvão a surgirem como as mais abrasivas do conjunto.
O clareamento que algumas pessoas notam vem de raspar pigmento superficial, não de mudar a cor intrínseca do esmalte. E há uma assimetria decisiva: o pigmento volta, o esmalte removido não.
Isto não deve virar pânico sobre abrasividade em geral. A American Dental Association afirma que qualquer dentífrico com abrasividade relativa da dentina (RDA) igual ou inferior a 250 é considerado seguro, e que valores abaixo desse limite não servem para ordenar pastas por segurança, porque não correspondem a diferenças clínicas no esmalte. O problema das pastas de carvão não é o conceito de abrasividade, é o facto de o efeito visível depender inteiramente dela.
O que um exame encontra antes de se falar de cor
Há achados que mudam o plano de branqueamento ou o cancelam. Conhecê-los antes da consulta evita uma expectativa errada.
Porque é que as coroas e as restaurações ficam mais escuras
O peróxido atua sobre estrutura dentária. Cerâmica, compósito e resina não alteram a cor. Se tem uma coroa num incisivo ou restaurações visíveis nos dentes da frente, o branqueamento vai clarear o dente em volta e deixar a restauração onde estava, o que aumenta o contraste em vez de o reduzir. A sequência correta é branquear primeiro, esperar a estabilização da cor e só depois substituir as restaurações.
Os outros achados que travam um branqueamento são cárie ativa, doença periodontal não tratada, recessões gengivais com dentina exposta e sensibilidade dentária já instalada. Em qualquer destes casos, o peróxido encontra um caminho para tecido inflamado ou para dentina descoberta, e o resultado é dor, não cor. A legislação e as recomendações profissionais excluem também grávidas e menores de 18 anos.
A parte da cor que se recupera sem peróxido
Uma fração real do escurecimento que incomoda as pessoas é pigmento extrínseco, depositado por café, chá, vinho tinto, tabaco e alguns colutórios com clorexidina. Essa parte responde a higiene, não a química agressiva: escovagem com uma pasta com flúor e abrasividade controlada, limpeza interdentária diária, higiene da língua e remoção profissional de cálculo e pigmento em consulta. Na loja encontra a linha de higiene oral blue®m, construída em torno de oxigénio ativo, incluindo a pasta dentífrica com flúor e a escova elétrica Sonic+ para quem tem dificuldade em controlar a pressão de escovagem.
Se fez um branqueamento e ficou com gengivas irritadas ou sensibilidade, fale com o seu médico dentista antes de aplicar qualquer coisa por iniciativa própria, sobretudo se a irritação não ceder em poucos dias.
Perguntas frequentes
Posso branquear os dentes se tiver 16 anos?
Não com produtos cosméticos de branqueamento. A legislação europeia proíbe o uso destes produtos em pessoas com menos de 18 anos, em qualquer concentração acima de 0,1%. Situações clínicas específicas em idade pediátrica são decisão do médico dentista, fora do âmbito cosmético.
As tiras de branqueamento vendidas em loja funcionam?
Se são legais para venda direta, contêm no máximo 0,1% de peróxido de hidrogénio. O efeito visível resulta sobretudo da remoção de pigmento à superfície. Não espere alteração da cor intrínseca do dente.
Sensibilidade depois do branqueamento é normal?
Sensibilidade transitória é o efeito secundário mais frequente e costuma resolver-se em poucos dias. Ardor imediato, gengiva esbranquiçada ou dor que se mantém não são esperados e devem ser avaliados por um médico dentista.
Antes de comprar, decida com base num exame
A pergunta útil não é qual o produto mais forte que consegue encontrar. É quanto da cor que o incomoda é pigmento superficial, quanto é cor intrínseca e o que existe na boca que torna o peróxido uma má ideia. Essa resposta sai de um exame.
Para uma rotina de higiene que trate a parte extrínseca da cor, veja a coleção blue®m. Para dúvidas sobre produtos ou disponibilidade, fale connosco.
Fontes: HPRA, alerta de segurança ao consumidor sobre produtos de branqueamento dentário, 30 de junho de 2026. Regulamento (CE) 1223/2009 e Diretiva 2011/84/UE. Ibrahim K, McNeill LS, Mei L, Health Marketing Quarterly, 2026 (doi:10.1080/07359683.2026.2687296). Tomás DBM, Pecci-Lloret MP, Guerrero-Gironés J, Annals of Anatomy, 2023. American Dental Association, Oral Health Topics: Toothpastes.