Sentiu o dente a reagir ao frio, escreveu os sintomas no telemóvel e, vinte minutos depois, tinha três explicações diferentes e um frasco no carrinho de compras. Um vídeo garantia que o problema era o flúor, outro que era o esmalte, um terceiro vendia a solução. A consulta ficou para a semana seguinte, e a semana seguinte foi passando.
Em julho de 2026, dois clínicos do Sydney Dental Hospital publicaram na BDJ Open a primeira revisão de âmbito dedicada precisamente a este terreno: o que a investigação já conseguiu medir sobre a informação de saúde oral que circula online. Reuniram 61 estudos. O que encontraram interessa a quem está a decidir se vale a pena marcar, e interessa por razões que não são as previsíveis.
O que 61 estudos mediram, e o que não mediram
Jonathon Oddy e Alexander Holden partiram de 864 registos na Scopus, Web of Science e Ovid Medline, cobrindo publicações até 26 de junho de 2025. Depois da triagem ficaram 61 estudos elegíveis. Destes, 45 (74%) saíram entre 2022 e 2025, e só em 2023 e 2024 foram publicados 25, cerca de 41% do total. Entre 1998 e 2013 existiam três.
Esse crescimento diz uma coisa e não diz outra. Diz que o assunto passou a ser investigado a sério. Não diz que a desinformação aumentou, e os autores fazem questão de o escrever: a revisão não apresenta nenhuma estimativa de prevalência. Ninguém contou que proporção do conteúdo sobre dentes que existe online é falsa. Quando lhe aparecer um título a afirmar que "X% do que se diz na internet sobre saúde oral é mentira", o número não vem de lado nenhum.
Onde é que a investigação foi procurar
YouTube e Instagram concentram as auditorias
Das 61 investigações, 21 (34,4%) analisaram o YouTube e 17 (27,9%) o Instagram. Seguem-se websites de qualquer tipo com 13 (21,3%), o Facebook com 11 (18,0%), o TikTok ou Douyin com 5 (8,2%), os sites de clínicas e consultórios com outros 5 (8,2%), o Twitter/X com 4 (6,6%) e aplicações de mensagens como WhatsApp, Telegram e WeChat com 4 (6,6%). Jornais e revistas tiveram uma única auditoria, e antiga.
Repare na assimetria. O TikTok, onde muita gente mais nova procura primeiro, foi analisado em cinco estudos, e os grupos de mensagens onde circulam conselhos de família em quatro. A parte da internet que mais pesa nas decisões é das menos auditadas. Quando não existe investigação sobre a fonte que está a ler, isso não a torna boa nem má. Significa que ninguém verificou.
O flúor é o tema com mais estudos dedicados
Organizados por assunto, o flúor e a fluoretação da água lideram, com 8 estudos específicos. Os implantes aparecem em 7, a estética e a medicina dentária cosmética em 4, os remédios caseiros como o branqueamento feito em casa em 3, a ortodontia e os alinhadores em 3, o tratamento endodôntico em 2. As auditorias gerais de saúde oral somam 34.
Esta lista serve-lhe de mapa de risco. Os temas que atraem mais conteúdo discutível são aqueles em que existe algo comprável sem passar por ninguém: o gel, o kit, o alinhador enviado por correio. É também onde a diferença entre um produto com dossier técnico e um produto com embalagem bonita se torna quase invisível num ecrã. Entre marcas de higiene oral, o que distingue uma da outra raramente é o que o vídeo escolheu mostrar.
Dezassete estudos descrevem o que aconteceu depois
A parte mais incómoda da revisão é a contagem de resultados ao nível do doente. Vinte e nove estudos (47,5%) mencionaram comportamentos ou desfechos de saúde. Dentro desses, cerca de 17 descreveram dano, evitamento ou atraso de cuidados: 10 referiram lesão ou dano concreto e 7 referiram que a pessoa evitou ou adiou ir ao profissional.
E depois vem a lacuna. Os autores não encontraram um único ensaio de intervenção, nem uma experiência natural. Existem relatos de gente que se lesionou ou que ficou em casa por causa do que leu, e não existe nenhum estudo que tenha testado o que corrige isso. As recomendações dos 61 artigos refletem esse vazio: 28 (45,9%) pedem regulação e supervisão, 14 (23,0%) pedem material baseado em evidência que seja fácil de encontrar, 11 (18,0%) pedem mais presença de fontes profissionais e apenas 6 (9,8%) falam de literacia digital.
As escalas medem a forma, não a verdade
Os instrumentos mais usados nestes estudos foram o Global Quality Score (15 estudos), o DISCERN (14), os dois em simultâneo (9), índices de legibilidade (4) e os critérios JAMA (3). Cerca de 33 estudos (54,1%) fizeram análise de conteúdo.
Vale a pena saber o que estas escalas avaliam, porque é uma distinção que quase nunca chega a quem lê. O DISCERN pergunta se a fonte está identificada, se a data está visível, se as alternativas de tratamento são mencionadas, se as incertezas são admitidas. Mede a estrutura e a transparência, não verifica se os factos estão certos. Os autores dizem-no sem rodeios: pontuações baixas de qualidade não autorizam a conclusão de que o conteúdo é falso.
O inverso também acontece. Um vídeo com autor identificado, data e tom sóbrio pontua bem nestas escalas e pode continuar a estar errado. E a revisão registou um padrão desconfortável: dentro de alguns estudos, o conteúdo de origem leiga ou comercial obteve mais interação do que o conteúdo profissional que pontuava mais alto nas grelhas de qualidade.
Quatro verificações que consegue fazer sozinho
Nenhuma delas exige formação clínica, e todas saem diretamente dos critérios que estes 61 estudos aplicaram.
- Procure a data. Regras de concentração de ingredientes, limites legais e indicações mudam. Um texto sem data pode estar a descrever uma realidade que já não existe.
- Veja se as alternativas aparecem. Conteúdo que apresenta uma única via de tratamento e nenhuma outra opção está a vender, não a informar. Em implantologia isto é frequente, e as diferenças entre sistemas e protocolos são reais, como se vê na documentação técnica de um fabricante como a Dentis.
- Repare no que fica à venda no fim. Não invalida o conteúdo. Mas muda o que deve exigir dele: quem vende tem de mostrar a evidência, não apenas o antes e depois.
- Confirme a concentração, não a promessa. Em produtos de estética e em dentífricos, o que determina o efeito e o risco é a percentagem do ativo e a via de aplicação. A palavra no rótulo diz pouco, o número diz quase tudo.
Como é a evidência quando é sólida
Serve de contraste um trabalho de março de 2026. Uma equipa da Egas Moniz School of Health and Science, com João Botelho, Luís Proença e Vanessa Machado, publicou na The Lancet Public Health uma revisão sistemática com meta-análise, em colaboração com o Programa de Saúde Oral da Organização Mundial da Saúde. Reuniu 28 estudos longitudinais, de 16 países, com mais de 300 mil participantes.
Os resultados: quem tem periodontite apresenta entre 19% e 26% mais risco de desenvolver diabetes tipo 2; a diabetes está associada a um aumento de 11% a 16% do risco de perda dentária; e quem já tem perda dentária significativa apresenta cerca de 30% mais risco de desenvolver diabetes. A relação funciona nos dois sentidos.
Compare a forma, mais do que o conteúdo: um desenho declarado, um número de participantes, intervalos em vez de um valor único, uma direção de efeito explicada nos dois sentidos, revisão por pares. Um vídeo de noventa segundos não tem nada disto, e não é por falta de tempo de ecrã.
Perguntas frequentes
O site da clínica onde quero ser tratado é fonte fiável?
É uma fonte interessada, e foi pouco estudada: apenas 5 dos 61 estudos analisaram sites de clínicas e consultórios. Use-o para saber quem atende, com que formação e com que equipamento, e não para decidir o tratamento. Essa decisão precisa de exame.
E as respostas que um assistente de inteligência artificial me dá sobre dentes?
Esta revisão não responde a isso, e é honesto dizê-lo: os autores excluíram de propósito três estudos centrados em chatbots. Logo, nenhum dos números acima se aplica a essas respostas, em nenhum sentido.
Então não devo pesquisar antes da consulta?
Deve. Pesquisar prepara perguntas melhores, e perguntas melhores dão consultas melhores. O que a revisão mostra é outra coisa: em 7 estudos a pesquisa levou pessoas a adiar ou evitar o profissional. Leve a pesquisa à consulta em vez de a usar para substituir a consulta.
Se tem uma dúvida concreta sobre um produto, uma concentração ou uma via de aplicação, fale com a nossa equipa. Respondemos com a ficha técnica e com a evidência que existe, incluindo quando a resposta honesta é que ainda não há dados suficientes.
Fontes: Oddy J, Holden A. "Online oral health misinformation and information quality: a scoping review". BDJ Open, vol. 12, artigo 76, 23 de julho de 2026 (DOI 10.1038/s41405-026-00457-6). Botelho J, Proença L, Machado V et al. "Oral health and diabetes: a systematic review and meta-analysis". The Lancet Public Health, março de 2026.