Vê sangue na espuma quando cospe e já nem estranha. Não dói, acontece há meses, e a ideia de marcar consulta vai ficando para depois. Um estudo japonês publicado a 17 de setembro no Journal of Clinical Periodontology dá uma boa razão para deixar de adiar: nas pessoas com mais sangramento gengival, o risco de vir a ter demência ao fim de dez anos foi mais alto.
Antes de entrar em pânico, convém perceber o que o estudo mediu, o que não consegue provar e o que faz sentido fazer com esta informação a partir de amanhã.
O que os investigadores de Kyushu acompanharam durante dez anos
O trabalho, liderado por Michiko Furuta, da Universidade de Kyushu, faz parte do Estudo de Hisayama, uma coorte que acompanha há décadas os habitantes de uma pequena localidade japonesa. Os investigadores seguiram 1396 adultos com 60 ou mais anos, todos sem demência no início, durante dez anos.
No arranque, e novamente ao fim de cinco anos, cada participante fez um exame periodontal completo. Foram registados três valores que o seu dentista também consegue medir numa consulta normal:
- Profundidade de sondagem: a profundidade do espaço entre o dente e a gengiva, medida com uma sonda milimetrada. Numa gengiva saudável anda pelos 1 a 3 milímetros.
- Perda de inserção clínica: quanto do suporte do dente (gengiva e osso) já se perdeu ao longo do tempo.
- Sangramento à sondagem: a percentagem de pontos da boca que sangram quando a sonda toca suavemente no fundo desse espaço.
Durante o seguimento, 267 participantes desenvolveram demência: 194 com doença de Alzheimer e 51 com demência vascular.
Os números que puseram o estudo nas notícias
Os participantes foram divididos em quatro grupos para cada medida, do melhor para o pior. Comparando o grupo com os piores valores com o grupo com os melhores:
- quem tinha as bolsas gengivais mais profundas teve um risco de demência 72% superior;
- quem tinha maior perda de inserção teve um risco 59% superior;
- quem tinha mais pontos a sangrar teve um risco 56% superior.
O sangramento destacou-se por outra razão: foi a medida que mais claramente se associou à doença de Alzheimer em particular. A profundidade das bolsas mostrou uma possível ligação à demência vascular, mas sem significado estatístico, o que é compreensível com apenas 51 casos.
Segundo a cobertura do estudo, as análises tiveram em conta a idade, o tabagismo, a diabetes, a tensão arterial, a atividade física e o número de dentes que cada pessoa ainda tinha. Este último ponto importa: sem ele, seria difícil separar o efeito da inflamação do efeito de simplesmente ter perdido dentes e mastigar pior.
A conclusão dos autores é prudente. Escrevem que a má condição periodontal esteve associada a demência em adultos japoneses mais velhos e que estes resultados sublinham a potencial importância, em saúde pública, de prevenir a periodontite.
Associação não é causa, e aqui isso faz toda a diferença
Este é um estudo observacional. Mostra que duas coisas andam juntas, não que uma provoca a outra. Há pelo menos duas explicações que os números, sozinhos, não conseguem afastar.
A hipótese inflamatória
Uma periodontite ativa é uma ferida inflamada e permanente dentro da boca. Numa boca com a doença instalada, a superfície de gengiva inflamada em contacto com bactérias pode ser considerável. Os autores propõem que os mediadores inflamatórios que daí passam para a circulação possam fragilizar a barreira que protege o cérebro. Algumas bactérias orais, ou os seus produtos, já foram encontradas em tecido cerebral noutros trabalhos, mas a relação de causa continua por demonstrar.
A hipótese inversa
O declínio cognitivo começa anos antes do diagnóstico. Uma pessoa que está a perder capacidades de forma silenciosa escova pior, esquece-se do fio dentário e falha consultas. Nesse cenário, as gengivas pioram por causa do cérebro, e não o contrário. Com dez anos de seguimento esta explicação perde força, mas não desaparece.
O mais provável é que as duas coisas aconteçam em simultâneo em pessoas diferentes. Para o leitor, a consequência prática é a mesma: tratar as gengivas não é garantia contra a demência, mas não há nenhum cenário em que deixá-las sangrar seja boa ideia.
Porque é que a gengiva que sangra não assusta ninguém
Se lhe sangrasse a pele do braço sempre que a lavasse, iria ao médico nessa semana. Na boca, aceitamos o sangue como normal. Não é. Nos critérios internacionais de classificação periodontal usados pelos dentistas europeus, uma boca é considerada saudável quando sangra em menos de 10% dos pontos examinados. Acima disso, fala-se já de gengivite.
O problema é que a gengivite e o início da periodontite raramente doem. O Barómetro da Saúde Oral 2025 da Ordem dos Médicos Dentistas, feito a 1200 pessoas, ajuda a perceber porque é que tanta gente chega tarde:
- 53,8% dos portugueses que vão pouco ou nunca ao dentista dizem que não sentem necessidade;
- apenas 23,4% limpam diariamente os espaços entre os dentes, que é precisamente onde a gengivite começa;
- 64,6% já não têm a dentição completa.
Não sentir necessidade é exatamente o sintoma de uma doença que não dói. A escova sozinha não chega às zonas entre os dentes, e é aí que a placa se acumula e a gengiva inflama primeiro.
O que fazer, por esta ordem
1. Olhe para o sinal durante uma semana
Repare se sangra ao escovar, ao passar o fio ou ao morder uma maçã. Note também se a gengiva está vermelha ou inchada junto aos dentes, se sente mau hálito persistente ou se algum dente parece mais comprido do que era. Qualquer um destes sinais, sobretudo se durar mais de duas semanas, justifica uma consulta.
2. Peça um exame periodontal, não apenas uma limpeza
Uma destartarização remove o tártaro visível. Um exame periodontal mede, dente a dente, as mesmas três coisas que o estudo de Hisayama mediu: profundidade de sondagem, perda de inserção e sangramento. Pergunte ao seu dentista ou higienista oral se esse registo é feito e quais foram os seus valores. É a única forma de saber se tem gengivite, que é reversível, ou periodontite, que se controla mas deixa marcas.
3. Limpe os espaços entre os dentes todos os dias
É aqui que a maioria das pessoas falha e é aqui que a diferença se faz. O seu higienista pode indicar se é melhor usar fita dentária ou escovilhões interdentários, conforme o tamanho dos espaços. Nos primeiros dias vai sangrar mais, e isso não é motivo para parar: numa gengiva que começa a ser limpa com regularidade, o sangramento costuma diminuir ao fim de uma a duas semanas. Se não diminuir, volte ao dentista.
4. Escove com técnica, não com força
Dois minutos, duas vezes por dia, com a escova inclinada na linha onde o dente encontra a gengiva. Escovar com força não limpa melhor e pode fazer recuar a gengiva. Uma escova elétrica sónica ajuda quem tem pouca destreza ou tende a carregar demasiado, mas não substitui a limpeza entre os dentes.
5. Controle os fatores que pesam nos dois lados
Tabaco e diabetes mal controlada agravam a doença das gengivas e entraram também nas contas do estudo como fatores de risco. Se fuma ou tem diabetes, diga-o ao seu dentista: muda o ritmo das consultas de manutenção e o tipo de tratamento.
Os produtos de higiene oral com oxigénio ativo, como os da gama blue®m, podem complementar os cuidados em casa, sobretudo em gengivas sensíveis ou em fase de tratamento. São um complemento à escova, à limpeza interdentária e ao tratamento profissional, nunca um substituto.
Perguntas frequentes
Se as minhas gengivas sangram, vou ter demência?
Não. O estudo mostra uma associação estatística num grupo de japoneses com mais de 60 anos, não um destino individual. A maioria das pessoas com gengivas inflamadas não desenvolveu demência. O que o estudo reforça é que o sangramento gengival é um sinal de doença que merece tratamento.
A gengivite tem cura?
Sim. A gengivite é reversível com boa higiene diária e uma limpeza profissional, normalmente em poucas semanas. A periodontite não volta atrás no osso que já se perdeu, mas pode ser estabilizada com tratamento e consultas de manutenção regulares.
De quanto em quanto tempo devo fazer um exame às gengivas?
Para quem não tem doença periodontal, uma avaliação anual é o habitual. Quem já teve periodontite costuma precisar de consultas de manutenção a cada três a seis meses, conforme indicação do dentista ou higienista.
O próximo passo
Se as suas gengivas sangram há mais de duas semanas, marque um exame periodontal e peça para ver os seus valores. Para os cuidados diários entre consultas, conheça a gama blue®m ou fale connosco se tiver dúvidas sobre que produto se adequa ao seu caso.
Fontes: Furuta M. et al., «Periodontal Status and the Risk of All-Cause Dementia, Alzheimer's Disease and Vascular Dementia in a Community: The Hisayama Study», Journal of Clinical Periodontology, 2026 (doi:10.1111/jcpe.70185); Oral Health Group e ScienceAlert, setembro de 2026; Ordem dos Médicos Dentistas, Barómetro da Saúde Oral 2025.